quinta-feira, 29 de maio de 2014

O que é a bíblia? Parte 13. Sem consciência e violência (por Rob Bell)


Série de reflexões sobre a Bíblia, escrita e publicada originalmente em inglês, no tumblr, pelo próprio autor Rob Bell e sua equipe. (http://robbellcom.tumblr.com/post/66107373947/what-is-the-bible).
Transcrito e adaptado para portugues por Marcus Vinicius Epprecht com autorização do autor. Proibida a reprodução para fins comerciais ou qualquer forma de ganho sobre este texto sem a autorização expressa do autor e do tradutor.
Revisado por Felipe Epprecht Douverny e Fernanda Votta Epprecht.
Publicado em português simultaneamente nos seguintes endereços:




Parte 13. Sem Consciência e violência



Então vamos falar sobre Ló, Sodoma, Jericó e todas as outras passagens violentas no Antigo Testamento. E no Novo Testamento, enquanto estamos no assunto. Vamos incluir os mandamentos de apedrejamento *(jogar pedras, não fumá-las), aquela coisa estranha no livro de números em que uma mulher tem que beber o pó para saber mais sobre a gravidez, Abraão oferecendo seu filho, porque isso é o que as pessoas fizeram, e enquanto estivermos nisso vamos incluir esta questão de um dos meus leitores:

kingofchapterone perguntou: (pergunta enviada por internauta no tumblr)

Será que Deus realmente disse aos israelitas para matar todo mundo, incluindo as mulheres e as crianças, nessas histórias do Antigo Testamento? Será que os profetas ouviram errado? Talvez eles estavam colocando em Deus algumas projeções (bem intencionadas) de sua própria agenda? Ou talvez os poderosos estavam apenas usando Deus como uma ferramenta para promover suas próprias agendas? Ou Deus é apenas um psicopata que teve um momento de "venha para Jesus"?

E esta , enquanto estamos no assunto:
tylorstandley perguntou : (pergunta enviada por internauta no tumblr)

Por que Deus ordenou que as pessoas matassem mulheres e crianças? Por que essas histórias são tão importantes?

Grandes questões.

Muitas respostas.

Primeiro, quando você estiver lendo estas histórias na Bíblia, você está lendo histórias contadas por pessoas (realmente óbvio, mas vou ficar repetindo isso ao longo de toda a série).

E as pessoas estavam (e estão) em vários estágios de consciência. (Pense em consciência como uma lente, um filtro, a principal maneira de ver e compreender o mundo).

O que você lê na Bíblia foi principalmente dito e escrito por pessoas em um estágio tribal da consciência (Tribos existiam para a sua própria preservação, quando você entrava em guerra com outra tribo, era seu deus contra o deus deles, se você ganhasse você os exterminava para que eles não voltassem e se vingassem mais tarde, mas você já sabe disso).

É assim que as pessoas viam o mundo,
é assim que as coisas funcionavam,
é assim que eles entendiam suas vidas.

Em segundo lugar, como as pessoas interpretam eventos e experiências depende do estágio de consciência em que estão.
Quando você ler essas histórias, então, você está lendo um reflexo preciso de como as pessoas entendiam o seu mundo e os eventos que ocorriam nele.

Você se surpreende quando alguém na Bíblia ganha uma batalha e, em seguida, dá ao seu Deus o crédito? Isso é o que as pessoas faziam naquele momento.

Você se surpreende quando, depois de vencer eles dizimavam as mulheres e crianças e, em seguida, diziam que seu Deus lhes dissera para fazê-lo? Isso é o que as pessoas faziam naquele momento.

Será que você se surpreende quando venciam e depois não deixavam ninguém escapar, mas passavam todos ao fio da espada e, em seguida, diziam tê-lo feito com o poder de Deus? Isso é o que as pessoas faziam naquele momento.

Será que você se surpreende quando Ló diz “Não os estuprem, tomem minhas filhas!” Isso é o que as pessoas faziam nessas situações.

Terceiro, você considera essas histórias de violência repugnantes, primitivas e bárbaras,

porque elas o são.

Se você não considerá-las chocantes e horríveis e confusas, algo está errado com você. E as pessoas que leem estas histórias e dizem: “Bem, é assim que Deus é”, têm uma visão muito, muito deformada e perigosa de Deus.

Em quarto lugar, nem todas as histórias na Bíblia - nós focaremos aqui na Torá - são assim.
Você acha que é primitivo e bárbaro cuidar das viúvas e dos órfãos? (Como é ordenado em Deuteronômio ... )
Você acha que é cruel e violento deixar um canto do seu campo para que os pobres possam ter algo para comer ? (Como é ordenado em Levítico ... )
Você acha primitivo que as pessoas devem ser libertas da escravidão? ( O livro de Êxodo ... )

Não, claro que não.
Essas idéias eram novas,
e elas são encontrados na Bíblia.

Enquanto estamos no assunto, em Ezequiel 16, o profeta cita Deus dizendo: "Eu mudarei a sorte de Sodoma ... " Aparentemente o que aconteceu no início da história, com a destruição cataclísmica de Sodoma não foi a última palavra sobre Sodoma.
(Mais sobre isso mais tarde.)

Em quinto lugar, então, e aqui é onde as coisas começam a ficar interessantes: O que você encontra na Bíblia são histórias que refletem com precisão a consciência dominante da época, ainda assim, em meio a elas e às vezes até dentro dessas mesmas histórias, você encontra ideias novas e radicais sobre a liberdade, a igualdade, a justiça, a compaixão e o amor.
Novas idéias colocadas lado a lado com as velhas idéias. Violência cruel bem ao lado de novos entendimentos sobre paz e justiça. O despertar da consciência acontece a partir e dentro da consciência atual. Sementes estão sendo plantadas, as sementes de uma nova visão, uma nova consciência, novas possibilidades, as sementes que estão apenas começando a crescer, como a história de Abrão sobre uma tribo que abençoa todas as outras tribos …

Em sexto lugar, então, (e estamos indo bem agora , não estamos? Começando a cozinhar com gás! Se estivéssemos pregando estaríamos acenando lenços e gritando amém!) ( Ou talvez você apenas estaria sentado lá, tranquilamente tuitando sobre isso) aqui está a verdade por trás dessa verdade : A consciência não muda da noite para o dia.

Mudança leva um tempo.
É assim que sempre foi.
É assim que é com você.

Então vamos falar sobre você.
Você já teve a idéia de que você deve comer de forma mais saudável?

Você se torna um vegetariano radical no dia seguinte?
Você já teve a sensação de que você deve se exercitar de forma mais consistente?

Você começou a competir no triátlon no dia seguinte?
Você já teve a convicção de que você deve fazer a sua parte para cuidar melhor do meio ambiente?

Você reduziu seu consumo de carbono a zero no dia seguinte?

Provavelmente não.
Você teve uma idéia nova, uma nova visão, um lampejo ou uma visão expandida, uma visão esclarecida de algo profundo foi revelada a você, e então gradualmente se enraizou.

Passo a passo, a passo.
Uma nova ação. Seguida por outra. Seguida por outra.

Porque a mudança leva um tempo.

E isso me leva ao meu sétimo ponto, o crescendo, o zênite - o momento em que o baterista é suspenso de cabeça para baixo sobre a multidão fazendo um solo ( já mencionei o quão divertido está sendo para mim escrever estas mensagens?) -

Por que você faz essas perguntas sobre a violência na Bíblia?
Por que você fica tão ofendido?
Por que você a considera repulsiva?
Por que isso faz com que você pare de ler a Bíblia?

Porque as histórias são primitivas e bárbaras?
Sim.

Mas o que há dentro de você que pode fazer esse julgamento?
O que é isso dentro de você que te deixa revoltado com tal violência?

De onde você tirou essa idéia de que há algo de errado nestas histórias?

Você tem essa idéia de que há um caminho melhor, mais civilizado, porque você não compartilha essa consciência dominante. Se é amor ou paz , justiça ou compaixão - há alguma maneira, alguma lente, algum filtro, através do qual você avalia as coisas, que lhe diz que matar muita gente está errado e qualquer deus que manda fazer tal coisa deve ser evitado a todo custo.

Como você chegou nesse ponto?
Como foi que o mundo produziu você?

A humanidade amadureceu, evoluiu e cresceu na consciência desde o tempo em que essas histórias foram contadas.

(De certas formas. Nós vamos chegar a isso mais tarde.)

Mas no geral, você sente repulsa e fica ofendido porque você está num estágio diferente de consciência.

Você não vê o mundo dessa forma.
Você acha que o genocídio é errado .
Você acha que o estupro é errado .
Você acha que matar mulheres e crianças é errado.

O que me leva a outra pergunta : Como você explica por que nós olhamos para essas histórias com desgosto?
O que aconteceu em nós para que leiamos as histórias da forma como fazemos?

Existe algo trabalhado na história humana, que puxa as coisas para a frente?
É algo ou alguém?

Sua capacidade de ser desestimulado por essas histórias é uma prova do crescimento e amadurecimento da consciência!

Você entendeu isso? Aquilo que nestas histórias mais te deixa chateado e desiludido e se perguntando por que deveríamos mesmo estar lendo essas histórias é em si um excelente exemplo de nossa capacidade de crescer e seguir em frente e superar estágios iniciais da consciência.

Bum!

Porque a sua repulsa subjacente em relação às histórias de violência no Antigo Testamento vem de sua crença de que somos mais esclarecidos do que isso.

Você já chegou lá?
Nós já chegamos lá como cultura, como sociedade, como humanidade?
Nós já entendemos?
Existe paz na terra?

Não.

Temos um longo caminho a percorrer?
Claro.

Mas só o fato de que sentimos repulsa e ficamos confusos e desestimulados por essas histórias de violência significa que algo tem trabalhado dentro da história humana nos movendo para frente.

Porque nenhum de nós chegou lá.
Nenhuma cidade, nenhum país, nenhuma família, nenhuma instituição, nenhum indivíduo, nenhuma empresa, todos nós precisamos de ajuda. Todos nós temos um longo caminho a percorrer …

Se você ler a Bíblia como um registro estático sobre o Deus que ordena às pessoas que matem outras pessoas, isso nunca fará qualquer sentido.

Mas se você lê-la como uma história se desenrolando, refletindo o crescimento da consciência sobre quem é Deus e quem somos e o que significa buscar a justiça e amar a misericórdia e caminhar humildemente (como disse o profeta Miquéias), você vai começar a ver alguma coisa trabalhando, logo abaixo da superfície, plantando sementes, movendo-se e chamando e puxando e carregando e inspirando e transformando gradualmente …

Se você lê-la como a história do acordar da humanidade, a evolução e expansão da consciência, crescendo em maturidade, tornando-se mais e mais iluminada (que era a oração de Paulo na carta aos Efésios) você pode encontrar uma história digna de ser contada …

* nota de tradução:stoning em inglês também significa fumar maconha, daí a piadinha que é difícil traduzir.



Próximo:O que é a Bíblia? Parte 14 – Uma parábola (que vai requerer sua participação(somente na postagem original))

sexta-feira, 23 de maio de 2014

O que é a bíblia? Parte 12. Tribos e violência (por Rob Bell)



Série de reflexões sobre a Bíblia, escrita e publicada originalmente em inglês, no tumblr, pelo próprio autor Rob Bell e sua equipe. (http://robbellcom.tumblr.com/post/66107373947/what-is-the-bible).
Transcrito e adaptado para portugues por Marcus Vinicius Epprecht com autorização do autor. Proibida a reprodução para fins comerciais ou qualquer forma de ganho sobre este texto sem a autorização expressa do autor e do tradutor.
Revisado por Felipe Epprecht Douverny e Fernanda Votta Epprecht.
Publicado em português simultaneamente nos seguintes endereços:




Parte 12. Tribos e violência




O SENHOR disse a Abrão: Vai ...
Abrão partiu ...
Gênesis 12

Vamos falar sobre tribos. No antigo Oriente Próximo, a sua tribo era sua família, sua linhagem, sua casa, sua identidade, sua tribo era tudo. E todos pertenciam a uma tribo.

Você trabalhava para o bem-estar de sua tribo, assim como todos os outros da tribo. Você acumulava posses, travava batalhas, fazia alianças, tudo em nome da preservação tribal. E se você fizesse algo inaceitável, algo vergonhoso, isso refletiria negativamente sobre sua tribo.

Agora, Gênesis 12. Segundo a história, Deus chama um homem chamado Abrão para ser o pai - líder - de uma nova tribo (Abrão mais tarde teve seu nome mudado para Abraão, e ele teve muitos filhos, e muitos filhos tem como pai a Abraão, e eu sou um deles, e você também ... ) ( eu não pude resistir.) ( Se você perdeu esse momento de puro humor não adulterado, essa é uma frase de uma música em que você repete esse verso várias vezes, cada vez mais rápido, até que todos desmaiam. Bons tempos.).

Mas, em seguida, a promessa a Abrão ganha um acréscimo:

e todos os povos da terra serão abençoados por meio de você.

Tribos (também chamadas de nações nas Escrituras Hebraicas) naquela época existiam para o seu próprio bem-estar e preservação. Esta tribo, aquela que Abrão lideraria, seria diferente. Esta tribo existiria para abençoar todas as outras tribos.

Esta era uma idéia nova.

Conforme essa tribo dos filhos de Abrão foi crescendo, eles levaram consigo este sentido de chamado, este sentido de que eles eram diferentes, que tinham um papel único a desempenhar no mundo.

Lembre-se, na história do Gênesis, no capítulo antes de nos encontrarmos com Abrão, a humanidade havia perdido o seu caminho, a tal ponto que eles estavam construindo uma torre para serem deuses eles mesmos. Então, se a humanidade tomou o rumo errado, como você pode mudar as coisas? Você começa uma nova tribo, uma nova humanidade, uma tribo que se moveria com, e não contra, Deus.

Agora, um pouco mais sobre as tribos.
Tribos tinham deuses e deusas, forças que eles seguiam e adoravam, e que eles acreditavam que os guiavam e protegiam. Então, quando você ia para a batalha contra outra tribo, geralmente por causa da terra ou acesso a recursos ou riquezas, você estava travando a batalha com eles, mas ao mesmo tempo o seu deus estava confrontando o deus deles. (Esse é o subtexto da história de Davi e Golias.) E quando você ganhava, você os exterminava e levava todas as suas coisas. Por quê? Porque se você deixasse alguns dos homens vivos, mais tarde eles se uniriam, talvez o filho do rei que foi morto se tornaria o líder e viria para obter a sua vingança. Você não podia arriscar. Ou talvez você matasse os homens, mas levasse as mulheres. E os burros, e tudo aquilo que você queria. Aqueles eram chamados de espólio de guerra. Havia regras sobre como isso funcionava, porque as tribos vinham fazendo isso dessa forma por um longo tempo.

Brutal? Sim.
Violento? Sim.
Primitivo? Sim.
Bárbaro? Sim.

Sua identidade tribal não dizia respeito apenas a sua linhagem e seus deuses, mas também a sua segurança. O mundo era extremamente perigoso e sem a proteção de uma tribo você podia facilmente tornar-se escravo de uma outra tribo ou pior. Isso não era como a escolha de um partido político moderno ou afiliação religiosa - sua sobrevivência estava em jogo. Quando você lê as histórias do Antigo Testamento sobre isso e aquilo, acumular tantos homens de combate e uma certa quantidade de espadas ou cavalos ou camelos ou fazer uma aliança com este ou aquele rei , este não era um hobby. Era uma decisão de vida ou morte. Matar ou morrer. E não importa quantas batalhas que você lutasse e ganhasse, você sempre estaria a uma batalha de ser esmagado pelo inimigo e ver sua tribo inteira exterminada, ou alguns de vocês sendo mortos e o restante sendo levado para ser assimilado à tribo dos conquistadores. (É por isso que a hospitalidade era tão importante, quando estranhos vagavam em seu acampamento você os convidava e cuidava deles, e fazia com que eles fossem bem tratados porque o menor desprezo ou falta de hospitalidade poderia desencadear sabe-se lá que tipo de violência ou conflito inter- tribal. Que é o que está acontecendo na história sobre Sodoma e Gomorra ... )

Imagine o que aconteceria se a tribo vizinha obtivesse uma nova tecnologia, como o ferro ou bronze. Seria terrível, sabendo que, se houver batalha, você seria superado por eles. Todo o seu modo de vida estaria em jogo (que é a tensão entre os filisteus e os israelitas durante a história de Davi e Golias).

É nesse mundo, nesse momento, que nós lemos a história de um homem chamado para ser o pai de uma nova nação, uma nova tribo, aquela que existiria não apenas para a sua própria autopreservação, mas para um propósito muito mais elevado de abençoar todas as outras tribos.

Essa é a história da tribo de Abraão, também chamada de Israel.

Você pode ver como essa idéia era radical?
Você pode ver como essa idéia teria levado um tempo para pegar? (E você pode ver por que Jesus continua lembrando o seu povo da sua vocação original?)
Você pode ver o quão difícil seria fazer este tipo de salto em uma cultura em que a afiliação tribal e preservação haviam sido o valor mais alto até então?
Você pode ver como não importa o que tinha sido dito sobre quem você é e qual a sua vocação, você ainda teria um filtro, uma lente, uma forma pela qual você via o mundo?

Você pode ver como teria sido fácil vencer uma batalha e matar todo mundo na tribo que você derrotou e, em seguida, dar o crédito ao seu deus, mais tarde contando histórias sobre como o seu deus lhe disse para fazê-lo?

Estamos apenas começando.



domingo, 18 de maio de 2014

O que é a bíblia? Parte 11. Como ela chegou até nós (por Rob Bell)



Série de reflexões sobre a Bíblia, escrita e publicada originalmente em inglês, no tumblr, pelo próprio autor Rob Bell e sua equipe. (http://robbellcom.tumblr.com/post/66107373947/what-is-the-bible).
Transcrito e adaptado para portugues por Marcus Vinicius Epprecht com autorização do autor. Proibida a reprodução para fins comerciais ou qualquer forma de ganho sobre este texto sem a autorização expressa do autor e do tradutor.
Revisado por Felipe Epprecht Douverny e Fernanda Votta Epprecht.
Publicado em português simultaneamente nos seguintes endereços:



Parte 11. Como ela chegou até nós


Vamos revisar.

Algumas pessoas ao longo de um período de tempo escreveram algumas coisas. Muito do que eles escreveram era uma tradição oral que já tinha sido passada por um tempo, e então, foi finalmente escrita. O que eles escreveram por fim cobre uma multidão de gêneros, da poesia à narrativa, à história, ao evangelho, à apocalíptica, bem como uma série de cartas.


Essas pessoas que escreveram essas coisas tinham objetivos, opiniões, perspectivas e argumentos específicos que eles queriam disseminar. Quando você lê os profetas menores, você está lendo o nascimento do que chamamos de justiça social (Você pode desenhar uma linha direta a partir da indignação no livro de Amós até o movimento Occupy Wall Street). Lucas está escrevendo seu relato da vida de Jesus, porque há dimensões da vida de Jesus que ele quer que seus leitores conheçam. A Torá foi reunida no exílio, onde a história da libertação definida no Êxodo teria tido especial ressonância imediata. O apóstolo Paulo viu Timóteo como um filho e quis passar a ele uma sabedoria especial sobre o que significava seguir Jesus na Ásia Menor, no primeiro século.


A partir do final do primeiro século, e pelas próximas centenas de anos, vários concílios e líderes da igreja decidiram que certos livros eram o que eles chamavam de canônicos (pertencentes à Bíblia) e outros não.
Eles desenvolveram critérios e formas de avaliar quais os livros que tinham certas características e quais não as tinham. Houve muita discussão e debate sobre o assunto. (Ainda em 1500 um líder de igreja chamado Martinho Lutero estava dizendo coisas depreciativas sobre certos livros do Novo Testamento, sugerindo que deveriam ficar de fora.)

Quando você afirma “a Bíblia” (qualquer que seja o cânon) você está ao mesmo tempo afirmando que concorda com os líderes e concílios específicos que selecionaram os livros, aqueles livros em especial, para compor a Bíblia. Isto é especialmente verdadeiro quando as pessoas dizem que a Bíblia é a Palavra de Deus (Nós vamos chegar a essa frase daqui a pouco).
Ao afirmar a Bíblia como a Palavra de Deus, você primeiro está concordando com as pessoas que decidiram que ela é palavra de Deus, e suas decisões sobre este livro contra aquele livro, esta biblioteca contra aquela outra biblioteca.

A Bíblia, então, é uma biblioteca de livros escritos por seres humanos, editados e compilados por seres humanos, e, finalmente, chamada A Bíblia por ... seres humanos. E estes seres humanos afirmaram que esta biblioteca particular de livros (com alguns desentendimentos) é mais do que apenas uma biblioteca de livros. Há uma série de palavras que têm sido usadas tanto nas escrituras como na história recente para descrever essa dimensão de ser mais-que-só-uma-biblioteca para esta biblioteca particular.

Inspirada. Autoritativa. Divina. Soprada por Deus.

Para acreditar que a Bíblia é ao mesmo tempo uma biblioteca de livros e mais do que uma coleção de livros da biblioteca é preciso fé. Você tem que acreditar que há algo mais acontecendo nestas páginas, algo logo abaixo da superfície, algo que une todos aqueles escritores escrevendo todos esses anos e, em seguida, todas as pessoas fazendo todas essas decisões sobre quais coisas que os escritores escreveram pertencem ao arranjo especial de escritos que chamamos de Bíblia.

Estas verdades sobre esta biblioteca e como ela chegou até nós nos ajudam a entender o que a Bíblia é e como falar (e não falar) sobre ela.

Em primeiro lugar, os argumentos circulares não são úteis. Por exemplo, a Bíblia é divinamente inspirada, porque ela diz que é. Qualquer livro poderia dizer isso. Este argumento não apenas não é útil, como também é terrivelmente confuso para as pessoas que nunca leram a Bíblia.
Em segundo lugar, insistir que este livro foi escrito por Deus, não é útil. Ela foi escrita por pessoas reais. Para as pessoas que são novas com a Bíblia, dizer que não foi escrita por pessoas também é terrivelmente confuso. Comece em primeiro lugar com o humano, e em seguida, faça o caminho para o divino.
Em terceiro lugar, a Bíblia não é um argumento. As pessoas que escreveram essas coisas tiveram experiências muito reais do divino e fizeram tudo que podiam para colocar essas experiências em palavras. Essas experiências foram filtradas através de sua consciência, cultura, visão de mundo, e história pessoal. As histórias da Bíblia foram contadas porque significavam algo profundo para as pessoas que primeiramente as escreveram.

Toda doutrina, dogma e teologia foi primeiro uma experiência mística. Alguém teve um encontro com o divino. E então partiu para articular o que aconteceu.

O que vemos nesta biblioteca particular é uma história, uma história que se desenrola ao longo do tempo, uma história sobre a crescente consciência humana do divino. É uma visão do mundo que evolui em sua compreensão de quem somos, para onde vamos, e o que significa ser humano. Esta história tem uma série de características particulares que a une, traços, reviravoltas, revelações, e por isso tantas pessoas como eu têm afirmado esse livro e essas histórias como sendo únicas, inspiradas e reveladoras.

Agora, quando eu falo sobre consciência , filtros e percepção, eu estou falando sobre o que acontece quando as pessoas em um lugar real e um tempo real têm um encontro com o divino.

Para explorar isto, vamos primeiro falar sobre tribos.
Então materialidade.
Em seguida, sobre consciência em expansão.
E então Jesus.