sábado, 20 de setembro de 2014

O que é a bíblia? Parte 21. No Ar, No Mar (por Rob Bell)



Série de reflexões sobre a Bíblia, escrita e publicada originalmente em inglês, no tumblr, pelo próprio autor Rob Bell e sua equipe. (http://robbellcom.tumblr.com/post/66107373947/what-is-the-bible).
Transcrito e adaptado para portugues por Marcus Vinicius Epprecht com autorização do autor. Proibida a reprodução para fins comerciais ou qualquer forma de ganho sobre este texto sem a autorização expressa do autor e do tradutor.
Revisado por Felipe Epprecht Douverny e Fernanda Votta Epprecht.
Publicado em português simultaneamente nos seguintes endereços:





Parte 21. No Ar, No Mar




Alguns de vocês perguntaram sobre inerrância. Se você não está familiarizado com essa palavra, é uma palavra que alguns usam para argumentar que a Bíblia não contém erros. Nos próximos dias vou escrever sobre a ideia de que a Bíblia é a palavra de Deus, inspirada e autoritativa, mas hoje, inerrância.

Meu filho de 13 anos está atualmente fazendo um programa de educação que exige dele ouvir uma certa quantidade de música clássica a cada dia. Então, no caminho para a escola todas as manhãs em vez de ouvir o nosso habitual Blink 182 e rap, ele escuta ... Mozart. Não foi a sua primeira escolha, mas recentemente ele admitiu que tem gostado cada vez mais de música clássica. (Como é que um pai não sorri diante isso?).

Algumas perguntas, então, sobre Mozart:
Será que a música de Mozart ganhou?
Você diria que a obra de Mozart está no topo?
Mozart é o MVP?
Em sua opinião, Mozart prevaleceu?
As músicas de Mozart ganham o prêmio?

Perguntas estranhas, certo?
Elas são estranhas porque não é assim que você pensa sobre a música de Mozart. Elas são as categorias erradas.

Por quê?
Porque o que você faz com a música de Mozart é escutá-la e gostar dela.

O que nos leva à inerrância: não é uma categoria útil. E se você tivesse ouvido falar de Mozart como aquele que ganhou, esses argumentos provavelmente impediriam você de realmente ouvir e apreciar Mozart.

Em primeiro lugar, essa não é uma palavra que a Bíblia usa sobre si mesma. Você pode imaginar perguntar ao apóstolo Paulo se a carta que ele estava escrevendo era inerrante? É importante não impor sobre a Bíblia categorias que a própria Bíblia não reconhece. Os escritores falam sobre a palavra de Deus e inspiração, sobre o sopro de Deus e autoridade, mas eles não mencionam inerrância. Os escritores da Bíblia falam é sobre como os acontecimentos que se desenrolam na história humana real revelam um Deus que age no mundo. Eles estão interessados em que os seus leitores vejam esse movimento e encontrem vida nele.

Em segundo lugar, esse não é o livro que temos. O que temos é uma biblioteca de livros escritos por um número de pessoas num longo período de tempo. Às vezes eles são a favor do divórcio, às vezes eles são contra. Um diz que Jesus era de Nazaré, outro de Belém. Em um lugar está escrito que o destino dos indivíduos está predestinado, em outro todo mundo é livre para escolher. Um diz que Davi pagou X por um pedaço de terra, outro diz que ele pagou Y. Uma história começa com Deus levando Davi a fazer alguma coisa, outro conta a mesma história e diz que Satanás o levou a fazê-lo.

A lista é longa .

Algumas dessas diferenças / contradições são facilmente resolvíveis - um relato foi escrito anteriormente, refletindo essa moeda ou maneira de pensar ou mentalidade, enquanto o relato conflitante foi escrito mais tarde, refletindo a mudança de pensamento que havia ocorrido entre os dois relatos.

Às vezes, o escritor tem uma agenda e está trabalhando em um estilo particular e relatando os eventos de seu tempo de tal maneira, que nós simplesmente não podemos entender o que exatamente está acontecendo no momento em que ele escreve.

Outras vezes temos suposições sobre a história e como ela é registrada que não são compartilhadas pelo escritor e por isso as estamos lendo e tentando descobrir como eles erraram tanto, quando na verdade eles não estavam escrevendo com essa intenção especial em primeiro lugar. (Acreditava-se que o imperador César, no final de sua vida, ascendeu aos céus para sentar-se à direita dos deuses - é por isso que Lucas termina seu livro com Jesus subindo aos céus? ... Para onde Jesus foi? Para o céu? Porque nós já enviamos naves espaciais até lá e ninguém o viu! Haha. Assumimos que Lucas está escrevendo os detalhes reais do que aconteceu, mas quando você volta e percebe que Lucas quer que seu público veja Jesus como Senhor, e não César, então a maneira como ele descreve Jesus ascendendo começa a fazer mais sentido. Nós, modernos, gostamos quando a história é precisa em relação a tempos e datas e fatos reais. É por isso que ainda estamos fascinados com o assassinato de Kennedy - parece que não temos todos os fatos exatos. Mas escritores antigos tinham objetivos diferentes - Lucas não está tentando nos enganar, ele está contando uma história da forma como as pessoas de seu tempo contavam histórias ... ) Mas, por mais que você lide com as estranhezas da Bíblia, se você negá-las ou evitá-las ou agir como se fossem facilmente descartáveis, as pessoas vão fechar suas mentes ou vão parar de ler.

É assim com você?
Ou você adota a linha do partido, o que significa que você tem que deixar o seu intelecto na porta,
ou
você cai fora?

O que me leva a um terceiro ponto - inerrância e argumentos semelhantes têm uma capacidade extraordinária de afastar as pessoas da Bíblia.

Eu já vi isso inúmeras vezes,
você também.

Não se trata de Mozart ganhar, é sobre Mozart ser experimentado pelo som bonito que ele faz. O uso de categorias inúteis sempre vai se voltar contra você. É possível usar tantas palavras e argumentos com relação à Bíblia que as pessoas ficam realmente vacinadas contra seu poder e beleza.

O que me leva ao quarto ponto, que começa com uma pergunta:

Você já aderiu totalmente à teoria das cordas?

Será que ela molda as decisões que você faz todos os dias – desde o que você compra, até como você come e a sua opinião sobre multiversos e como você reagiu ao último episódio de Breaking Bad?

Provavelmente não.

Mas e se a teoria das cordas se provar verdadeira? E se realmente descrever o modo como as coisas são – e então as suas implicações moldarem o comportamento humano de inúmeras maneiras? E se a teoria das cordas tornar-se a forma como vemos o mundo? (Lembre-se, houve um momento em que as pessoas perceberam que a Terra era redonda. Outra hora eles perceberam que a Terra não era o centro do universo. Depois, foi a constatação de que, apesar de serem invisíveis, germes são reais).

Agora, vamos imaginar que essa revolução das cordas aconteça – ela vai negar tudo o que se disse e se fez antes? Será que vamos ler suas mensagens de tumblr antes de se tornar um cordista como o resto de nós e desacreditá-lo? Não, não vamos.

Por quê? Porque você é uma pessoa real, e tudo o que faz e diz vem através de sua muito real humanidade, com suas paixões e sonhos, pensamentos e perspectivas limitadas, e julgamentos precipitados e tudo o mais que faz de você, você. O poder da Bíblia não vem de evitar o que ela é, mas abraçar o que ela é. Livros escritos por pessoas reais, finitas, limitadas, e falhas. Pessoas reais, que vivem em lugares reais, em épocas reais. E não é apenas a sua visão de mundo limitada - uma das afirmações repetidas pelos escritores bíblicos é que nós, como seres humanos, somos pecadores, desde a história de Adão e Eva até o fim, com o Apóstolo Paulo escrevendo sobre como todos nós temos ficado aquém ... nós temos a capacidade tremenda de bagunçar tudo. E a Bíblia chega até nós por meio desses mesmos tipos de seres humanos.

Em quinto lugar, então, ao defender a inerrância se defende um tipo diferente de biblioteca de livros, uma biblioteca que não temos. É importante crescer, evoluir e amadurecer. O fundamental para a maturidade é o discernimento, o reconhecimento crescente de que a realidade não é tão limpa e arrumada e simples como gostaríamos. Inerrância é uma falha em crescer na reflexão sobre a Bíblia. O que temos é uma coleção de histórias e poemas e cartas e contos e evangelhos fascinante, bagunçada, imprevisível, às vezes impressionantemente bela, outras vezes visceralmente repulsiva, que reflete a crescente convicção de que somos importantes, que tudo está conectado e que a história humana está indo para algum lugar.

Como já escrevi antes, para apreciar plenamente a Bíblia, você deve deixá-la ser o que é. E quando você faz isso, você descobre que ela é cheia de vida e surpresa.

O que me leva a uma última pergunta: se algo extraordinário e real e convincente está acontecendo na história humana, de que outra forma poderia ser escrito?

Ou, dito de outra forma: Quando se trata da Bíblia, o que você estava esperando?

Ou, dito de outra forma: De onde é que as pessoas tiraram a ideia de que inerrante é a forma mais elevada de verdade?

Mozart é inerrante?
O pôr do sol é inerrante?
Será que o amor entre você e a pessoa por quem você está apaixonado é inerrante?
A melhor refeição que você já comeu é inerrante?

Em matemática, é ótimo não ter erros,
o mesmo acontece na criação de um carro ou na construção de uma casa que você não quer que entre em colapso, mas a Bíblia tem a ver com Significado. Esperança. Coragem. Inspiração. Alegria. Redenção.

A Bíblia tem a ver com a música.
Música que você não analisa ou discute,
música que você ouve.
E desfruta.




Próximo: O que é a Bíblia? Parte 22 – A Palavra de Deus, Baby.

O que é a bíblia? Parte 20. Questões, questões (por Rob Bell)



Série de reflexões sobre a Bíblia, escrita e publicada originalmente em inglês, no tumblr, pelo próprio autor Rob Bell e sua equipe. (http://robbellcom.tumblr.com/post/66107373947/what-is-the-bible).
Transcrito e adaptado para portugues por Marcus Vinicius Epprecht com autorização do autor. Proibida a reprodução para fins comerciais ou qualquer forma de ganho sobre este texto sem a autorização expressa do autor e do tradutor.
Revisado por Felipe Epprecht Douverny e Fernanda Votta Epprecht.
Publicado em português simultaneamente nos seguintes endereços:





Parte 20. Questões, questões



É sexta-feira (nt. dia da publicação original), o que significa que é hora de uma pergunta:

jangosclone:

Acabei de ler a última sessão de sua série sobre a Bíblia e achei muito convincente. Você pode recomendar qualquer leitura adicional sobre este assunto?

Claro.

N.t. As respectivas edições em português encontradas no mercado nacional estão referenciadas e os demais apenas traduzidos os títulos, de forma literal.

Eu recomendo começar com dois livros de Thomas Cahill . Especialmente se você está cansado, desiludido, tentando se desintoxicar de idéias insalubres e inúteis sobre Deus, Jesus, Igreja, etc, que estão girando em torno de sua mente e coração.
Primeiro,
A Dádiva dos Judeus. Como uma tribo do deserto moldou nosso modo de pensar. Editora Objetiva, 1999.(The Gifts of Jews)
e, em seguida,
O Desejo das Colinas Eternas. O mundo antes e depois de Jesus, Editora Objetiva, 2000.(The Desire of Everlasting Hills).

Se você estiver interessado na história e no pano de fundo das escrituras hebraicas, tente os
livros de Bruce Feiler
Pelos Caminhos da Bíblia - Uma Viagem Através do Antigo Testamento. Editora Sextante, 2002.(Walking the Bible)
e
Onde Deus nasceu (Where God Was Born).
(Ele inclui na parte de trás de cada um deles uma extensa lista de referências. Ouro puro lá.).

No que diz respeito a comentários sobre as Escrituras Hebraicas, há um grande, chamado
Os Cinco Livros de Miriam: Comentário de uma mulher sobre a Torá (The Five Books of Miriam: A Woman´s Commentary on the Torah)
por Ellen Frankel
e também há o
JPS Torah Commentary
e
A Bíblia Como ela Foi
por
James Kugel (Que é incrível).


Agora, um pouco sobre Jesus.
Se é nova para você a ideia de que Jesus era judeu e tudo que ele faz é nesse contexto, eu começaria com
Compreendendo as Palavras Difíceis de Jesus (Understanding the Difficult Word of Jesus)
de
Bivens e Blizzard,
depois
As parábolas de Lucas. Editora Vida Nova, 1995. (Poet and Peasant)
de
Kenneth Bailey,
depois
Nosso Pai Abraão (Our Father Abraham)
de
Marvin Wilson,
e depois
Em Busca de Jesus. Debaixo das Pedras, Atrás dos Textos, Paulinas, 2007.(Excavating Jesus)
de
Crossan e Reed
e depois você vai acabar no
Site de Lois Tverberg


que é carregado com uma visão fascinante.

Se você é um pastor, e é tempo de Natal, nem sequer pensar em pregar sem a leitura de A Libertação do Natal (The Liberation of Christmas) de Richard Horsley.

Se você está se perguntando se Jesus existiu mesmo, posso apresentá-lo a um homem chamado NT Wright? Obtenha um livro de sua autoria com Jesus no título, sente-se em uma cadeira confortável, e se prepare para ser incendiado com verdadeiras pesquisas e insights históricos e inteligentes.

Se você tem perguntas sobre a Bíblia semelhante àquelas com as quais eu estive lidando nesta série, eu recomendo Kenton Sparks em seu excelente livro Palavra Sagrada, Palavra Quebrada (Sacred Word, Broken Word).

Agora, um pouco mais pessoal.

Para mim, o capítulo 3 do livro de Dallas Willard, A Conspiração Divina, Editora Mundo Cristão, 2001.(The Divine Conspiracy) mudou tudo.

O trabalho de Robert Farrar Capon me influenciou de inúmeras maneiras, e eu recomendo começar com O Mistério de Cristo (The Mistery of Christ), e depois As Parábolas da Graça (The Parables of Grace).

Jurgen Moltmann escreveu um livro chamado O Espírito da Vida: uma Pneumatologia Integral. Editora Vozes, 2010.(The Spirit of Life).
Eu ainda estou me recuperando.

O livro de Alexander Shaia O Poder Oculto dos Evangelhos (The Hidden Power of the Gospels) é um espanto.

E então algo de Richard Rohr, eu começaria com O Agora Despido (The Naked Now).
Além disso, algo de Frederick Buechner,
começando por
O Alfabeto da Graça (The Alphabet of Grace),
algo de Abraham Joshua Heschel,
começando com
Eu pedi assombro (I Asked Wonder).

O livro de Barbara Brown Taylor
Deixando a Igreja (Leaving Church) é maravilhoso,
e
o livro de Francis Spufford
Sem Apologética (Unapologetic) é o meu livro do ano.

Eu tenho certeza que eu esqueci alguma coisa .
Espero que isso ajude.
Aproveite.