sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O que é a Bíblia? Parte 1 (por Rob Bell)

Série de reflexões sobre a Bíblia, escrita e publicada originalmente em inglês, no tumblr, pelo próprio autor Rob Bell e sua equipe.(http://robbellcom.tumblr.com/post/66107373947/what-is-the-bible).
Transcrito e adaptado para portugues por Marcus Vinicius Epprecht com autorização do autor. Proibida a reprodução para fins comerciais ou qualquer forma de ganho sobre este texto sem a autorização expressa do autor e do tradutor.
Revisado por Felipe Epprecht Douverny.
Publicado em português simultaneamente nos seguintes endereços:





Parte 1. Alguém escreveu alguma coisa


Tive recentemente uma série de conversas que de alguma forma me levaram à Bíblia. Digo “de alguma forma” porque não foram conversas com amigos particularmente religiosos que me levaram à Biblia, e ainda assim eles falavam sobre o seu interesse na Bíblia.

Alguns reconhecem prontamente esta biblioteca particular de livros (sim, é uma biblioteca, mais tarde falarei sobre isso...) que moldou a civilização ocidental profundamente e de inúmeras maneiras, e mesmo assim muitos não tem a menor noção do que a Bíblia realmente é. E mais: eles não têm a menor idéia sobre o que a Bíblia realmente é, além de vagas referências como: Davi matando Golias (Embora no livro de 2 Samuel esteja escrito que um homem chamado El-Hanã matou Golias); ou advertências sinistras sobre o fim do mundo (como no recente filme This Is The End, onde Jay Baruchel fica lendo trechos do livro do Apocalipse para Seth Rogen, Jonah Hill e James Franco, como se esse fosse o livro para ajudá-los a entender por que o buraco em seu jardim na frente de sua casa engoliu Rihanna ... ); ou histórias sobre Jesus fazendo coisas como transformar água em vinho (Verdade? Esse foi o seu primeiro milagre? Ele tornou possível que as pessoas continuassem a beber por dias a fio? É por isso que Jesus foi acusado de ser um bêbado?).

Outros ouvindo alguém citar a Bíblia, algo no que a pessoa disse os fez pensar “não é possível que a Bíblia diga isso. E mesmo assim eles não têm nenhuma maneira melhor ou mais bem informada de combater a explicação que ouviram do outro, a não ser dizendo: você não pode estar falando sério, isso é loucura!!!

Para outros, a Bíblia os pegou desprevenidos. Eles tiveram uma experiência, eles provaram alguma coisa, eles sentiram algo, eles sofreram algo e eles descobriram na Bíblia uma linguagem para o que tinham experimentado. Eles foram injustiçados por alguém e sendo francos consigo mesmos perceberam que eles queriam que a pessoa morresse de um jeito violento e macabro. E descobriram que esses mesmos impulsos estavam descritos em detalhes vívidos nos Salmos. Como é que alguém que escreveu milhares de anos atrás, em um lugar diferente, em um idioma diferente em uma cultura diferente pode descrever, com detalhes tão surpreendentes, exatamente o que eu estou sentindo aqui e agora, no mundo moderno? Como algo que muitos descartaram como irrelevante pode ser às vezes tão chocantemente relevante?

Boas perguntas!!!

Eu vou chegar às perguntas.

Vou começar com a forma como a bíblia passou a ser a Bíblia,
então eu vou escrever sobre
inundações
e
peixe
e
torres
e
sacrifício de crianças
tudo a fim de explorar o que está acontecendo sob a superfície das histórias da Bíblia.

Então eu vou abordar algumas das maneiras nas quais muitas pessoas foram ensinadas a pensar e falar sobre a Bíblia -

como a palavra de Deus, O Bom Livro, a palavra viva, os princípios para viver, A Palavra, o padrão absoluto, A VERDADE INERRANTE SOBRE A QUAL NÃO PODE HAVER DÚVIDA, a visão de Deus sobre as coisas, o supremo manual do proprietário, e assim por diante.

- e por que essas formas de pensar e falar sobre a Bíblia não estão funcionando hoje da forma como costumavam para muitas e muitas pessoas.

Tudo isso me leva a articular uma forma de entender a Bíblia na qual a mente e o coração estejam ambos totalmente engajados, em vê-la e lê-la pelo que ela é: uma vibrante, antiga, poética, revoltante, provocante, misteriosa, reveladora, escandalosa e inspirada coleção de livros chamada “A Bíblia”, que conta uma história,
uma história que eu quero que você ouça.

Primeiro, então, um pouco sobre como chegamos à Bíblia.

Alguém escreveu algo.

Óbvio, mas verdadeiro. É um importante ponto de partida.

A Bíblia não caiu do céu, foi escrita por pessoas.

Mais uma vez, óbvio, mas nos dá uma base para começar a pensar sobre o que a Bíblia é. Muitas das histórias da Bíblia começaram como tradições orais, transmitidas de geração em geração até que alguém as colecionou, editou, e realmente as escreveu. Às vezes centenas de anos mais tarde. Isto é, anos e anos de pessoas sentadas em torno de fogueiras e caminhadas ao longo das estradas empoeiradas e quentes, reunindo-se para ouvir e discutir, debater e lutar com essas histórias.

As pessoas que escreveram estes livros tinham muito material para escolher. Havia muitas histórias por aí, muitas coisas sendo transmitidas, muito material a incluir.
Ou não incluir.

(Há um verso no livro do Antigo Testamento de 1 Reis 11, onde o autor escreve:

Quanto aos outros eventos do reinado de Salomão , tudo que ele fez e a sabedoria que ele mostrou - porventura não estão escritos no livro dos anais de Salomão?

Bem, sim, eu acho que eles estão ... só que não temos idéia do que ele esteja falando.
Interessante a premissa por parte do autor de que não só sabemos disso, mas temos acesso a esses anais.
O que não temos.

Vemos algo semelhante no evangelho de João, onde está escrito:

Jesus realizou muitos outros sinais na presença dos discípulos, que não estão registrados neste livro

e, em seguida, o livro termina com esta linha:

Jesus fez muitas outras coisas também. Se cada uma delas fosse escrita, nem todos livros do mundo poderiam conter esses escritos.

É como se o escritor, só para embrulhar as coisas, acrescentasse: Ah, Sim! eu deixei uma tonelada de coisas para fora!!).

Os autores dos livros da Bíblia, então, não estavam apenas escrevendo, mas selecionando e editando e fazendo uma série de decisões sobre sobre qual material e conteúdo apoiava/combinava ou não com seus propósitos ao escrever.

Esses escritores tinham agendas:

Lucas: Eu também decidi escrever um relato ordenado para você ...
O Livro de Ester : Isto é o que aconteceu ...
João: Estes foram escritos para que creiais …

Havia pontos que eles queriam expor, defender, ressaltar, coisas que eles queriam que seus leitores vissem, idéias que queriam compartilhar. Estes escritores, é importante ressaltar, eram pessoas reais que viviam em lugares e tempos reais. E seus verdadeiros propósitos, intenções e agendas foram moldados por seus tempos, e lugares
e contextos e economias e política e religião e tecnologia e inúmeros outros fatores.

O que nos diz sobre o mundo em que Abraão viveu, o fato de que, quando lhe foi dito para oferecer seu filho como um sacrifício, ele tenha partido para fazê-lo como se fosse uma coisa natural para um deus pedir?

A história de Davi e Golias começa com tecnologia. Os filisteus tinham um novo tipo de metal, os israelitas não. A história é amparada pelo medo primal que vem quando seu vizinho tem armas que você não tem - como lanças. Ou equipamentos de guerra. Ou bombas.

Por que o apóstolo Pedro usa a frase não há outro nome debaixo do céu ... ?
Onde ele conseguiu essa frase e que imagens de propaganda militar seriam trazidas à mente de seus ouvintes ?

Pessoas reais ,
escrevendo em lugares reais ,
em tempos reais ,
com agendas ,
escolhendo incluir algum material,
optando por deixar de fora outro material,
tudo porque eles tinham histórias para contar.

Dito isto, dois pensamentos para encerrar esta introdução:

Em primeiro lugar, para alguns, a Bíblia é apenas uma coleção de livros antigos.
Livros escritos por pessoas, e nada mais. Para outros, a Bíblia é uma coleção de livros, mas também é mais do que apenas uma coleção de livros. Eles são livros, mas são mais do que apenas livros.

Mais adiante nós vamos chegar a palavras como inspiração, e revelação, e “Deus soprou” (no que eu creio - mas estou me adiantando), mas, por enquanto, é importante começar por afirmar o óbvio: A Bíblia é em primeiro lugar, antes de mais nada, uma biblioteca de livros escritos por seres humanos.

Digo isto porque há um literalismo artificial que muitos têm encontrado em relação à Bíblia, que faz grandes declarações sobre sua divindade e inspiração e perfeição, e depois não sabe o que fazer com a sua humanidade.

Por que os quatro relatos da ressurreição nos evangelhos diferem em detalhes básicos?

Por que não existem denúncias claras de poligamia? Ou escravidão?

Por que Paulo diz no Novo Testamento que ele está falando, não o Senhor ... ?

Quando as pessoas definem com grande insistência: “esta é a palavra de Deus” negligenciando o tempo todo a humanidade muito real desses livros, elas podem, inadvertidamente, roubar desses escritos justamente seu poder sagrado.

Tudo por começar no lugar errado.

Você começa com o humano. Você faz essas perguntas, você entra ali (na Bíblia), você direciona suas energias para entender por que essas pessoas escreveram estes livros.

Porque tudo o que você encontrar de divino nela, será através do humano, e não em torno dele.

(Preciso falar um pouco sobre onde eu quero levá-lo: se você deixar de lado a natureza divina da Bíblia como ponto de partida, e mergulhar na humanidade dela, você encontrará o divino de forma inesperada, em maneiras que podem realmente transformar o seu coração. Esse é o ponto, certo?)

Em segundo lugar, um pouco sobre as perguntas.

Muitas vezes, especialmente quando as pessoas encontram uma passagem estranha ou macabra ou particularmente inexplicável, elas vão perguntar:

Por que Deus disse isso?

O problema com essa questão é que ela pode deixá-lo amarrado em todos os tipos de nós. (Sério? Deus disse-lhes para matar todas as mulheres e crianças? Deus disse? E nós devemos aceitar que, bem, é assim que Deus é?).

Esse tipo de coisa.

A melhor pergunta é:
Por que as pessoas acharam importante contar essa história?

seguida por:
O que foi que fez esse povo registrar essas palavras?

seguida por:
O que estava acontecendo no mundo naquela época?

e então:
O que esta passagem / história / poema / verso / livro nos diz sobre como as pessoas entendiam quem eram e quem era Deus naquela época?

e então:
Qual é a história que está se desenrolando aqui e por que essas pessoas pensaram que era uma história digna de ser contada?

Vamos pegar uma dessas histórias:
a de um dilúvio -
e fazer esses tipos de perguntas.


Próximo: O que é e Bíblia? Parte 2 - Inundações

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