sexta-feira, 8 de agosto de 2014

O que é a bíblia? Parte 17. Pressuposições e encontros do AA (por Rob Bell)



Série de reflexões sobre a Bíblia, escrita e publicada originalmente em inglês, no tumblr, pelo próprio autor Rob Bell e sua equipe. (http://robbellcom.tumblr.com/post/66107373947/what-is-the-bible).
Transcrito e adaptado para portugues por Marcus Vinicius Epprecht com autorização do autor. Proibida a reprodução para fins comerciais ou qualquer forma de ganho sobre este texto sem a autorização expressa do autor e do tradutor.
Revisado por Felipe Epprecht Douverny e Fernanda Votta Epprecht.
Publicado em português simultaneamente nos seguintes endereços:





Parte 17. Pressuposições e Encontros do AA



Lembro-me do primeiro sermão que eu dei como se fosse ontem. É uma das lembranças mais vívidas que tenho. Eu tinha 21 anos e eu me ofereci para dar o sermão (Quem faz isso? Quem se voluntaria para pregar um sermão?). Eu sabia, no momento em que me levantei para começar a falar, que era isso o que eu deveria fazer da minha vida. E realmente senti como se fosse o primeiro dia do resto da minha vida, como se minha vida estivesse começando novamente, como se eu fosse feito para isso.

Sei que pode soar dramático, mas foi isso que aconteceu.

Esse sermão acabou por ser o primeiro de muitos.

Eu iria estudar uma passagem na Bíblia e em seguida preparar um sermão e então pregá-lo, em seguida, estudar outra passagem, preparar outro sermão e pregá-lo...

É o que eu venho fazendo desde então. E eu amo isso mais do que nunca. Eu amo o ofício, o processo, o suor, o sentimento enlouquecedor que vem quando você está perto, mas não chegou lá. Eu amo as horas de estudo e reflexão. Eu amo ver tudo isso se unindo. Eu adoro quando estou trabalhando em algo e de repente eu vejo o que eu não tinha visto antes. E eu estou sentado lá sozinho na minha mesa e empurro a cadeira para trás e respiro profundamente, porque eu estou abasbacado pelo fato de que, o que quer que eu tenha descoberto, eu vou poder compartilhar com as pessoas.

Digo tudo isso porque, como um pregador, a Bíblia é onde você começa. E a Bíblia, como todos sabemos, pode ser um problema. Algumas pessoas são contra ela, mas não tem idéia do que está nela, alguns simplesmente não confiam nela, alguns a vêem como um obstáculo para a evolução e iluminação, e outros apenas continuam a repetir os mesmos versículos que tem sido repetidos por anos, perguntando-se por que todos - incluindo eles mesmos - estão tão entediados. E ainda alguns têm tanta bagagem associada a ela que não sabem nem por onde começar …

Acho a Bíblia mais fascinante que nunca. Conforme eu passei a limpo meus anos de pregação, percebi que há uma série de percepções que modelaram o modo como me aproximo da Bíblia, percepções que vou fazer o meu melhor para explicar aqui.

Então se você está fatigado, desanimado, ou enterrado em sua bagagem quando se trata de Bíblia, isto é para você.

Primeiro, você tem que começar com o que você tem.
Eu tenho um amigo chamado Pete Rollins (sugiro a leitura de seus livros, eles são esplêndidos), que aponta que uma das razões para as reuniões do AA serem tão poderosas é que tudo que você tem é a sua materialidade. O que ele quer dizer com materialidade? Em uma reunião do AA , você não pode fingir. Você não pode se esconder. Você não pode ser qualquer coisa ou qualquer pessoa que não seja quem você é e o que você tem feito. Você é impotente contra o álcool, a sua vida se tornou incontrolável, e você precisa de ajuda. Você está ali, naquela sala, sentado naquela cadeira dobrável, bebendo café, em sua essência nua e crua.

Se você fosse para dizer " Oi, eu sou ______ e eu sou alcoólatra, mas você tem que entender que não é assim um problema tão grande, porque eu sou realmente uma pessoa incrível que alcançou todos os tipos de coisas incríveis, e não é realmente o meu estilo estar em uma reunião como esta ... " todos nós saberíamos que você não está pronto. Você não está falando sério. É só quando você chega ao fundo do poço, quando você está disposto a sentar-se com a sua dor e impotência e enfrentá-la e reconhecê-la e abraçá-la pelo que ela realmente é, em toda a sua crua materialidade é que você tem uma chance de um dia limpo e sóbrio.

Agora vamos pensar na materialidade em relação à Bíblia.
A Bíblia é uma série de escritos de pessoas reais que viveram num lugar real em tempos reais. Isso é o que temos. Isso é o que a Bíblia é, antes que seja outra coisa. É aí que começamos. Essas pessoas que escreveram essas coisas eram auto-centradas, engraçadas, gananciosas, amorosas, imprevisíveis, generosas, apaixonadas e propensas a fazer coisas realmente estúpidas.

Assim como nós.

Eles tiveram experiências.
Eles contaram histórias.
Eles fizeram o seu melhor para compartilhar essas histórias e traduzir essas experiências.

Quando você se aproxima da Bíblia, então, você tem que começar com o que você tem, o que você sabe sobre ela, o que realmente é.

É aí que você começa.
Em segundo lugar, então, quanto mais pressuposições você trouxer para a Bíblia menos interessante você vai achá-la.
Vamos começar com um exercício: Você tem pensamentos sobre Deus e a Bíblia. Crenças. Ceticismos. Convicções. Raiva. Experiências. Coisas que as pessoas têm dito. Coisas que você leu. Opiniões sobre o Deus em que você acredita ou não. Qualquer outra coisa. Imagine esses pensamentos como bolas de gude. Cada um uma bolinha brilhante.

Entenderam? Bom. Agora, pegue todas as bolas de gude e coloque-as em seu bolso. Ou em um balde. Ou no porta-copo em seu carro. Você entendeu. Deixe-as à parte. Ponha-as fora de alcance.

Agora, leia a Bíblia.
Sem qualquer uma dessas bolas de gude.

Vá em frente.
Experimente.
Escolha uma passagem aleatória.
Mergulhe nela.

Será melhor para você lê-la sem deixar qualquer idéia sobre Deus entrar no quadro.

Se você fizer isso, tudo que você tem são as palavras na página. Escritas por pessoas, transmitidas por pessoas, editadas por pessoas, decididas por pessoas.

Isso é o que você tem.

Agora, vamos voltar a algumas dessas perguntas que muitas vezes surgem quando as pessoas falam sobre a Bíblia. Vamos nos concentrar em algumas das perguntas quase clichês, mais comuns, como:
Por que Deus disse a essas pessoas para matarem outras pessoas?
ou
Por que Deus criou as pessoas se Deus sabia que eles iriam estragar tudo?
ou
Por que Jesus teve que morrer - Deus não podia ter salvado o mundo de outra maneira?

Você já ouviu falar dessas, certo?

Aqui está o porquê de eu trazê-las: se você fosse perguntar às pessoas que levantaram as questões de onde tiraram suas idéias sobre este ser nomeado DEUS, não tenho dúvidas sobre o que seria a mais provável resposta: A partir da Bíblia.

Você está acompanhando?
Você vê por que isso pode ser um problema?

As pessoas que fazem perguntas como estas já têm uma série de pressuposições e crenças e pensamentos sobre Deus e a Bíblia, e trazem isso tudo para sua leitura da Bíblia. Então, enquanto elas estão lendo, estão constantemente comparando o que estão lendo com o que já decidiram sobre quem é e como é Deus (Isto é especialmente verdade para as pessoas religiosas que cresceram ouvindo sobre uma versão específica de Deus. Para elas pode ser muito, muito difícil ouvir a Bíblia de outra maneira).

A arte, o desafio, o convite, então, ao ler a Bíblia é estar ciente, o máximo possível, de suas bolas de gude e mantê-las na gaveta, enquanto você puder. É por isso que muitas vezes as pessoas que cresceram na igreja, ao irem para a faculdade e terem uma aula de literatura ou religiões comparadas e terem que ler a Bíblia como parte de seus cursos, de repente acham que ela é fascinante. A sua formação, na verdade, inoculou-as contra a natureza cativante da Bíblia, pois gastou muito tempo lhes dizendo o que ela é …

O que me leva a um terceiro ponto: Cuidado com os sermões onde o ponto é provar algo sobre a Bíblia.

Não só eles são muitas vezes muito chatos, e tão confuso de se saber qual é o seu público-alvo (Estas são pessoas que se levantaram em uma manhã de domingo e a melhor coisa que poderiam pensar em fazer era entrar no carro e dirigir até um prédio para ouvir alguém falar sobre um livro que foi escrito há milhares de anos por pessoas em um continente diferente em uma cultura diferente, que falavam uma língua diferente. Eles provavelmente não precisam ser convencidos de muita coisa ... ),

mas eles são um exercício gigante em errar o alvo.

A Bíblia não é um argumento, é um registro da experiência humana. O ponto não é provar que é a palavra de Deus ou é inspirada ou qualquer-que-seja-a-palavra-que-está-em-uso-pelas-pessoas, o ponto é entrar em suas histórias com tamanha intenção e vitalidade que você descubra o que é que inspirou as pessoas a escreverem esses livros.

(Quando você encontrar algo inspirador, a última coisa em sua mente é provar que é inspirado, você fica totalmente tomado pelo fato de ser realmente inspirado).

Se você está tentando provar o que ela é,
você já está profundamente perdido na floresta.

Mas se você mergulhar profundamente na humanidade dela, é aí que as coisas começam a ficar interessantes ...

Em quarto lugar, então, você tem que deixá-la ser o que é.
Há muitas passagens que são um tanto quanto misteriosas, palavras na língua original para as quais não temos equivalentes modernos, histórias que envolvem práticas e rituais para os quais não temos qualquer referência de contexto ...

Mas se você mantiver suas bolas de gude no balde e ler e ouvir atentamente, você começará a ver a história por trás da história, a história de pessoas acordando para entendimentos maiores e mais expansivos sobre quem eles entendem que Deus é e o que eles acreditam que Deus está planejando para o mundo.

Suas perguntas, então, começam a tomar um novo caráter, porque você começa a perceber que quanto mais você entra na humanidade dessas histórias, mais descobre que há algo nelas, algo insistente, algo duradouro, algo que não vai deixar essas pessoas escaparem.

E então você percebe que essa mesma força, presença, arrastão e chamado está trabalhando hoje dentro de você. E de todos que o rodeiam.

E o que quer que seja que não vai deixar essas pessoas escaparem também não vai deixar você escapar.

Assim, quaisquer que sejam suas perspectivas sobre a Bíblia , deixe-a ser o que é.
Se você ainda está segurando uma bagagem que você não precisa, deixe isso pra lá.
Se você não pode lê-la sem se apressar em fazer julgamentos, coloque mais algumas bolinhas de gude na gaveta.
Se você só é capaz de lê-la de uma única maneira, peça por novos olhos.

Em seguida, vamos olhar para algumas coisas na Bíblia que exigem deixá-la ser o que é, começando pela ressurreição.



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